segunda-feira, 25 de junho de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Escolas mantêm práticas do século 16


Escolas mantêm práticas do século 16 e avaliam aluno de forma discriminatória, diz especialista
sáb, 16/06/2012
Especialista em avaliação Cipriano Luckesi defende que escolas mantêm práticas do século 16 e faz um apelo: avaliar um aluno não deve ser um ato discriminatório, mas uma estratégia a favor da aprendizagem
De modernas, as práticas de avaliação atuais só têm o período histórico em que foram criadas. Isso porque ainda aferimos os resultados do processo de ensino-aprendizagem com a mesma metodologia do século 16, início da Idade Moderna. Essa é a tese de Cipriano Luckesi, que estuda o tema da avaliação há 44 anos. Na entrevista a seguir, ele observa que, embora a nomenclatura "avaliação" seja usada, o que se pratica na maioria das salas de aula são os exames, que têm como objetivo selecionar e discriminar os alunos que aprenderam dos que não aprenderam, em vez de promover um esforço para que todos aprendam.
Professor aposentado da Universidade Federal da Bahia, Luckesi é bacharel em Teologia, licenciado em Filosofia, mestre em Ciências Sociais e doutor em Educação. Para ele, "avaliar é o fato de investigar, de produzir conhecimento" - é isso o que ele explica na série on-line "Gestor Escolar - Fundamentos", recém-lançada pelas Edições SM (edicoessm.com.br/gestor_escolar_fundamentos).
O senhor defende que a avaliação ainda segue os moldes do século 16. Poderia explicar melhor essa ideia?Em nossa tradição escolar, que se sistematizou a partir do século 16, perdura até hoje o modelo daquela época, chamado de "exames escolares". A tradição é de ensinar e, depois, separadamente da prática do ensino, exercitar os exames escolares. O que caracteriza o exame escolar? Ele é classificatório e seletivo, portanto o estudante que está na sala de aula pode permanecer e dar continuidade aos estudos, ou ser escolhido pela seletividade. Os exames existem há milênios como práticas sociais. Antes de Cristo, na China, já se praticava o exame para soldados. No Ocidente, a partir do século 16, surgiu a escola simultânea, ou seja, um professor que ensina muitos alunos ao mesmo tempo. Com o crescimento da quantidade de estudantes, tinha de haver um meio de aferir se eles tinham aprendido ou não, e aí importaram o modelo de examinação de outras áreas para a Márcio Limaeducação. Mas com a diferença de que na escola o aluno já tem a vaga, então só vai para aprender, e não para ser selecionado. Ainda assim, a prática é de seleção.
 
Isso não mudou desde então?A partir de 1930, o educador norte-americano Ralph Tyler começou a ponderar que não podíamos permitir a existência de uma escola que admite 100 crianças  e aprova apenas 30. Era preciso encontrar uma metodologia para que a escola aprovasse as 100. E o método é aparentemente óbvio: ensina, diagnostica. O aluno não aprendeu? Ensina-se novamente, até que ele aprenda. Todavia, a escola, em função da articulação dos exames escolares, não conseguia fazer isso, o que acontece até hoje: ensinamos e aplicamos uma prova. Se o estudante foi bem, está aprovado; se não foi bem, está reprovado, e fim de conversa. No Brasil, começamos a conversar sobre avaliação em torno dos anos 70. A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1961 ainda tem um capítulo sobre os exames escolares. A de 1971 não fala mais de exames escolares, mas de aferição do aproveitamento escolar. A lei que introduziu o termo avaliação é a de 1996, ainda que estados e municípios passassem a usar o termo avaliação para denominar a prática do exame. Mudamos a terminologia e não a prática. O esforço é fazer os educadores transitarem do conceito e prática de exame para a avaliação. De maneira geral, os professores não estão preocupados se a nota revela a aprendizagem ou não. Se tem nota 7 (supondo que essa seja a média) é aprovado e, se não, é reprovado. Classificam em uma escala de 0 a 10 e em consequência disso praticam a seleção. Durante o ano letivo ele vai sendo levado, mas no final se pratica a exclusão.
Qual o modelo de avaliação ideal?Não se pode fazer uma avaliação com características aleatórias. É preciso ter o rigor metodológico de uma pesquisa científica. Hoje, os exames são elaborados e aplicados sem que tenham características como sistematicidade. Para o rigor científico existir, é necessário ter como base o que foi ensinado e o que o professor quer saber se o aluno aprendeu. Então, ele obterá dados sistematicamente coletados sobre aquilo que quer compreender e avaliar. Além disso, os instrumentos devem ser elaborados com uma linguagem compreensível. O estudante precisa compreender o que está sendo perguntado. Hoje muitos não entendem o que o professor quer dizer e o educador diz "se vira". Uma terceira característica da boa avaliação é ser compatível com o ensino. Se ensinei fácil, pergunto fácil; se ensinei complexo, pergunto complexo. Os professores não levam em consideração o que foi ensinado em relação ao que precisa ser avaliado, então há uma disparidade entre a metodologia e a prática do conhecimento. A quarta característica é que as perguntas às vezes são imprecisas ou genéricas. É necessário que haja a mesma compreensão da pergunta pelo educador e pelo estudante. O que fez Dom Pedro I, por exemplo? Muita coisa! Tem de ser quando e onde. Tem de precisar a pergunta. Essas quatro características (sistematicidade, linguagem compreensiva, comprometimento metodológico do ensino e do instrumento de avaliação e precisão das perguntas) não são levadas em consideração. Quando isso acontece, o professor se engana e engana o estudante, sua família
e a sociedade.
Nessa nova perspectiva, não existiria a ideia de repetência?Não. Essa é uma palavra que precisa desaparecer do vocabulário da educação. Existem países, como a Dinamarca, em que o termo não existe nem no dicionário. Uma escola de ensino fundamental nesses países tem oito anos de escolaridade e são oito anos de aprendizagem satisfatória. No Brasil, com as múltiplas características de condições insatisfatórias de ensino, como material didático ruim, baixos salários, pouca paciência do educador em acolher o educando, entre outras, o que ocorre é que temos crianças que têm dificuldade de aprender. Mas como não há investimento para sanar essa dificuldade, elas são excluídas. Eu sou exemplo disso. Sou multirrepetente: fui reprovado três anos. Até que um dia um professor disse que se eu fosse bem ensinado, aprenderia. De lá para cá, aprendi. Hoje sou um pesquisador bem-sucedido. Alguém tem que dizer isso para os alunos. O diretor da escola precisa tomar nas mãos o destino da escola. Se tenho 10 estudantes que foram retidos em um ano, vou deixá-los retidos ou fazer ensino de qualidade para ultrapassar a defasagem? Não é só o professor que está envolvido nisso, mas a instituição escolar como um todo.
Como colocar isso em prática?A resposta é: gestão. Precisamos deixar de caracterizar o professor como um sacerdote. Ele é um gestor. E um gestor é aquele que produz efeito. Além disso, a gestão passa pelo diretor da escola, o vice-diretor, o secretário de Educação, o supervisor, o coordenador e o professor. O discurso "tem muito aluno, muita dificuldade" é muito comum em educação. A produção de resultados efetivos é empurrada com a barriga. Vitor Paro, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp), fez um estudo há 10 ou 12 anos sobre avaliação de aprendizagem em uma escola de São Paulo, que resultou no livro Fracasso escolar, renúncia à educação. Ele conta que, no primeiro dia do ano letivo do 1º ano do ensino fundamental, um educador lhe disse que dos 33 estudantes, no final 16 provavelmente seriam reprovados. Se no 1º dia de aula eu determino assim, nos outros 199 dias de aula o que vou fazer? Poderia fazer a gestão para que os 16 que eu identifico com dificuldade superem essa dificuldade. Mas se eu acredito desde o 1º ano que eles terão resultado negativo, eles terão.
Quais desafios o professor enfrenta hoje para mudar a forma de avaliar?O primeiro é pessoal, no sentido de que fomos formados sob a égide da cultura dos exames. Na sala de aula, reproduzimos o que aconteceu conosco. O segundo é mudar o modelo  dos exames, que vem do esquema de sociedade na qual eles nasceram: alguns ficam e muitos caem fora. Tem a história da educação também. São 500 anos de prática de exames escolares e isso não mudará de hoje para amanhã. Ralph Tyler começou a falar sobre avaliação em 1930 e ainda estamos tentando entendê-la e instituir uma nova prática. Trabalho com avaliação há 44 anos. Vejo mudanças. Estamos fazendo um movimento, mas ele ainda é insuficiente do ponto de vista de mudança da qualidade e da prática.

Fonte: Revista Educação 
http://www.universoneo.com.br/site/escolas-mantem-praticas-do-seculo-16-e-avaliam-aluno-de-forma-discriminatoria-diz-especialista
Pirateado de 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Como a MAUATHUR destruiu Visconde de Mauá (para meus netos)


          Para quem não conhece, é preciso lembrar que até meados de 2016 a região de Visconde de Mauá foi um paraíso ecológico. Sim, quem for agora pra lá vai se espantar e dizer que estou mentindo, como que o bairro de motéis de luxo da Grande Resende foi um paraíso? Só as pessoas mais velhas podem se lembrar disso.
         Existem as fotos e vídeos, mas com o aperfeiçoamento do Vídeoshop e Photoshop, muitos não sabem distinguir o que foi real e o que é montagem. Mostrei vídeos da cachoeira do Escorrega pros meus netos e eles duvidaram da veracidade deles, achando que eram montagens. Perguntaram: como que o Tobogã de Água Quente da Maromba foi uma Cachoeira Natural??

         Visto esse desconhecimento dessa geração, resolvi escrever um pequeno histórico, é de memória, pois sabemos que a grande catástrofe de 2019 acabou com os aquivos da época.

    • Até a virada do Milênio, Visconde de Mauá era considerada um paraíso natural. Atraía pessoas de todo o Brasil pra aproveitarem de suas cachoeiras e matas (sim havia matas fora do Parque Nacional). Mas além de atrair turistas que gostavam da natureza, começou a atrair grandes empresários que perceberam que poderiam lucrar muito numa região em que a população trabalhava pra manter um turismo pequeno porém ecológico.
    • Na primeira década do século, esses empresários foram fortalecendo uma associação comercial, chamada MAUATHUR, que nasceu pra atender a demanda de comerciantes frente a uma administração pública ausente. (Sim, meus netos, na origem essa MAUATHUR, que foi proibida em 2017 e teve todos os seus diretores presos, teve um papel positivo na região).
    • Hoje é sabido que a MAUATHUR comprou governantes estaduais pra criarem em 2007 o Projeto de Asfaltamento a Qualquer Custo, mas pra manipular a população chamaram de Estrada-Parque (sim, meus netos, sei que o nome é tão ridículo como o outro, pois se é estrada não é parque, mas isso enganou a população na época).
    • Como na Folha de Propina (chamavam de folha de pagamento na época em que o caixa 2 era proibido) constavam juízes, presidentes de órgãos ambientais e prefeitos (sem falar da imprensa), o processo foi muito rápido.
    • Entre 2008 e 2009 conseguiram no lado oficial diminuir ao máximo as leis ambientais pra fazer do jeito que queriam, e do lado popular compraram as Associações que tinham comerciantes ingênuos que seguiam suas ordens através da manipulação de informação.
    • Entre 2010 e 2011 fizeram a obra de asfaltamento da RJ-163, conseguiram acabar com a potabilidade da água de todo o entorno da estrada, deixando cicatrizes irremediáveis na Serra da Pedra Selada.
    • O mais absurdo de tudo, meus netos, é que diziam que tinham feito as obras de Esgoto e Saúde necessárias na região. Até o correio era inexistente, os moradores de Itatiaia tinham que se deslocar até uma agência em Resende pra pegar suas cartas e contas. Entende-se o contexto visto que o prefeito da época era dono de hotel em região concorrente - o hotel dele era na entrada do Parque Nacional e fez de tudo pra diminuir o turismo dos fundos do Parque Nacional, chegando ao ponto de não mais fazer a manutenção das estradas de terra (o que iludiu alguns moradores a apoiarem as teorias mafiosas das associações e seu asfalto a qualquer custo).
    • Não havia médicos nem hospitais e queriam aumentar a carga de turistas circulando. Quando a população perguntava sobre essas benfeitorias, os governantes diziam que a estrada estava boa, então que buscassem esses serviços no centro, pois o deslocamento seria rápido (muitos morreram dentro das ambulâncias presas nos congestionamentos na serra).
    • Sobre o esgoto, a coisa era a mais absurda de todas: a MAUATHUR defendia a teoria de que a merda mineira não era poluente, somente a merda fluminense. Assim, fizeram estações de tratamento (usando tecnologia obsoleta – acabando a luz, a merda vai pro rio) somente de um lado do rio, pra justificar o asfaltamento entre as pequenas vilas da região.
    • Teve uma data histórica, 26 de junho de 2012, quando um PERITO visitou a região, e autorizou a execução da obra na RJ-151. Houve manifestações da MAUATHUR e sua filial ASSOMIR (esta associação era descarada, se dizia de moradores mas só defendia o interesse dos comerciantes, se dizia a favor dos Bloquetes mas lutava pelo asfalto da MAUATHUR) em prol do Asfalto a qualquer custo, e a população local pela última vez caiu naqueles argumentos. Não se pôde fazer nada naquele ano, pois era ano eleitoral, mas o DER justificou somente fazer obras de manutenção pra DUPLICAR a largura da estrada.
    • Em 2013 e 2014 asfaltaram a RJ-151 e aproveitaram pra asfaltar os principais vales da região. Somente Minas Gerais ficou sem obras e isso ajudou na preservação por alguns anos. Curioso que o município mais pobre dos 3 da região sempre foi o mais sofisticado e ecológico.
    • Já no final de 2013 a população percebeu os erros cometidos, mas era tarde. No verão de 2013/2014 o cheiro do rio Preto na Vila de Mauá estava insuportável (isso que ainda fizeram medidas compensatórias, mas nada funcionou), ou seja, perceberam que a merda de Minas Gerais era tão prejudicial quanto a do Rio de Janeiro, e fizeram estações no lado mineiro.
    • O trânsito ficou tão ruim que construíram pontes e duplicaram e asfaltaram as estradas mineiras. A cada intervenção destas, os associados da MAUATHUR recebiam fortunas em desapropriação e os comerciantes locais e tradicionais (das famílias mais antigas) tiveram de mudar pra longe, somente a família Bruller que soube preservar seu entorno e ecologia conseguiu criar uma ilha de vegetação e mata fora do Parque Nacional.
    • Em 2014 as festas populares perderam totalmente o público vindo de fora, pois a cidade estava mais fedida que o Rio Tietê (antes desse ser canalizado e soterrado).
    • No inverno de 2014, mesmo com as novas estações de tratamento de esgoto o cheiro alcançou as vilas de Maringá, acabando com o turismo nessa região. Somente a Maromba recebia turistas, e os que tinham condições vinham de helicóptero pra evitar o mau cheiro das vilas da chegada.
    • A essa altura, os tubarões da MAUATHUR e ASSOMIR se afastaram da região (segundo se fala, foram destruir e enriquecer em outras regiões mais afastadas). Alguns antigos tentaram ainda fazer algo e a última proposta foi a canalização do Rio Preto, entre a Maromba e a Ponte dos Cachorros. Por cima do Rio Preto construíram as vias rápidas, mas que comparadas à época da estrada de terra só se consegue chegar a metade da velocidade de antigamente, pois o congestionamento não se consegue evitar. Agora falam de fazer um rodízio de placas nas estradas de Visconde de Mauá...

          Enfim, meus netos, sou a favor que no lugar do rodízio se faça uma ciclovia e uma faixa de trasporte coletivo. Mas meu sonho mesmo é que se destrua o Canal Osvalldo Cão pra tentar recuperar o antigo Rio Preto, mas sei que isso é sonho de velho e o progresso tem de continuar (ouço isso desde a Rio 92). Quem sabe na Rio+30 deste ano conseguiremos verba pra mudar a região...

Rui Thakeguma, 19 de junho de 2022
(este texto foi publicado nos principais Jornais e Revistas do Brasil em 2022 obviamente é um texto fictício e qualquer coincidência com a realidade, é mera coincidência)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Curiosidade é uma coceira de idéias (de Rubem Alves)

Eu estava com a cabeça quente. Queria descansar, parar de pensar. Para parar de pensar nada melhor que trabalhar com as mãos. Peguei minha caixa de ferramentas, a serra circular e a furadeira e fui para o terceiro andar, onde guardo os meus livros.

Iria fazer umas estantes. As tábuas já estavam lá. Nem bem comecei a trabalhar de carpinteiro e fui interrompido com a chegada da faxineira. Com ela, sua filhinha de 7 anos, Dionéia. Carinha redonda, sorriso mostrando os dentes brancos, trancinhas estilo afro.

O que se era de esperar numa menina da idade dela era que ela ficasse com a mãe. Não ficou. Preferiu ficar comigo, vendo o que eu fazia. Por que ela fez isso? Curiosidade. Curiosidade é uma coceira que dá nas idéias... Aquelas ferramentas e o que eu estava fazendo a fascinavam. Ela queria aprender.

‘O que é isso que você tem na mão?‘, ela perguntou. ‘É uma trena‘, respondi. ‘Para que serve a trena?, ela continuou. ‘A trena serve para medir. Preciso de uma tábua de um metro e vinte. Assim, vou medir um metro e vinte. Veja!‘

Puxei a lâmina da trena e lhe mostrei os números. Ela olhou atentamente. ‘Você já sabe os números?‘, perguntei. ‘Sei‘, ela respondeu. Continuei: ‘Veja esses números sobre os risquinhos. O espaço entre esses risquinhos mais compridos é um centímetro. Um metro tem cem centímetros, cem desses pedacinhos. Veja que de dez em dez centimetros o número aparece escrito em vermelho. É que, para facilitar, os centímetros são amarrados em pacotinhos de dez. Um metro é feito com dez pacotinhos de dez centímetros.. Um metro e vinte são dez desses pacotinhos, para fazer um metro, mais dois, para completar os vinte centímetros que faltam‘. Marquei um metro e vinte na tábua com um lapis me preparei para riscar a tábua.

Assim se iniciou uma das mais alegres experiências de ensino e aprendizagem que tive na minha vida. A Dionéia queria saber de tudo. Não precisei fazer uso de nenhum artifício de “motivação” para que ela estivesse motivada. O que a motivava era o fascínio daquilo que eu estava fazendo e das ferramentas que eu estava usando. Seus olhos e pensamentos estavam coçando de curiosidade. Ela queria aprender para se curar da coceira... Os Gregos diziam que a cabeça começa a pensar quando os olhos ficam estupidificados diante de um objeto. Pensamos para decifrar o enigma da visão. Pensamos para compreender o que vemos. E as perguntas se sucediam. Para que serve o esquadro? Como é que as serras serram? Porque é que a serra gira quando se aperta o botão? O que é a eletricidade?

Lembrei-me de Joseph Knecht, o mestre supremo da ordem monástica ‘Castália‘, do livro de Hermann Hesse ‘O jogo das contas de vidro‘. Velho, ao final de sua carreira, no topo da hieraquia dos saberes, ele se viu acometido por um enfado sem remédio com tudo aquilo e passou a sentir uma grande nostalgia: queria descer da sua posição para fazer uma coisa muito simples: educar uma criança, uma única criança, que ainda não tivesse sido deformada pela escola. Pois ali estava eu, vivendo o sonho de Joseph Knecht: a Dionéia, que ainda não fora deformada pela escola. Seu rosto estava iluminado pela curiosidade e pelo prazer de entrar num mundo que não conhecia.

Lembrei-me da afirmação com que Aristóteles inicia a sua Metafísica: ‘Todos os homens tem, por natureza, um desejo de conhecer: uma prova disso é o prazer das sensações, pois, fora até de sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas e, mais que todas as outras, as visuais...‘

Acho que Aristóteles errou. Isso não é verdade dos adultos. Os adultos já foram deformados. Acho que ele estaria mais próximo da verdade se tivesse dito: ‘Todos os homens, enquanto crianças, têm, por natureza, desejo de conhecer...‘

Para as crianças o mundo é um vasto parque de diversões. As coisas são fascinantes, provocações ao olhar. Cada coisa é um convite.

Aí a Dioneia sumiu. Pensei que ela tivesse voltado para a mãe. Engano. Alguns minutos depois ela voltou. Estivera examinando uma coleção de livros. ‘Sabe aqueles livros, todos de capa parecida? Os três primeiros livros estão de cabeça para baixo.‘ Retruquei: ‘Pois ponha os livros de cabeça para cima!‘

Ela saiu e logo depois voltou. ‘Já pus os livros de cabeça para cima.‘ E acrescentou: ‘Sabe de uma coisa? O livro com o número 38 está fora do lugar.‘ Aí aconteceu comigo: fui eu quem ficou estupidificado...Ela, que não sabia escrever, já sabia os números. E sabia mais, que os números indicam uma ordem.

Fiquei a imaginar o que vai acontecer com a Dionéia quando, na escola, os seus olhinhos curiosos vão ser subtraídos do fascinio das coisas do mundo que a cerca, e vão ser obrigados a seguir aquilo a que os programas obrigam. Será possível aprender sem que os olhos estejam fascinados pelo objeto misterioso que os desafia?

Pois sabe de uma coisa? Acho que vou fazer com a Dionéia aquilo que Joseph Knecht tinha vontade de fazer...

Rubem Alves, 68, é educador, psicanalista, escreve estórias para crianças e crônicas para adultos. No momento está escrevendo um livro em que conta, para suas netas, como era o mundo em que viveu, criança, na roça...Seus últimos livros: O Médico, Por uma educação romântica ( Papirus) e Livro sem fim ( Loyola).


Pirateado de http://www.rubemalves.com.br/curiosidadeeumacachoeiradeideias.htm