segunda-feira, 25 de junho de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Escolas mantêm práticas do século 16


Escolas mantêm práticas do século 16 e avaliam aluno de forma discriminatória, diz especialista
sáb, 16/06/2012
Especialista em avaliação Cipriano Luckesi defende que escolas mantêm práticas do século 16 e faz um apelo: avaliar um aluno não deve ser um ato discriminatório, mas uma estratégia a favor da aprendizagem
De modernas, as práticas de avaliação atuais só têm o período histórico em que foram criadas. Isso porque ainda aferimos os resultados do processo de ensino-aprendizagem com a mesma metodologia do século 16, início da Idade Moderna. Essa é a tese de Cipriano Luckesi, que estuda o tema da avaliação há 44 anos. Na entrevista a seguir, ele observa que, embora a nomenclatura "avaliação" seja usada, o que se pratica na maioria das salas de aula são os exames, que têm como objetivo selecionar e discriminar os alunos que aprenderam dos que não aprenderam, em vez de promover um esforço para que todos aprendam.
Professor aposentado da Universidade Federal da Bahia, Luckesi é bacharel em Teologia, licenciado em Filosofia, mestre em Ciências Sociais e doutor em Educação. Para ele, "avaliar é o fato de investigar, de produzir conhecimento" - é isso o que ele explica na série on-line "Gestor Escolar - Fundamentos", recém-lançada pelas Edições SM (edicoessm.com.br/gestor_escolar_fundamentos).
O senhor defende que a avaliação ainda segue os moldes do século 16. Poderia explicar melhor essa ideia?Em nossa tradição escolar, que se sistematizou a partir do século 16, perdura até hoje o modelo daquela época, chamado de "exames escolares". A tradição é de ensinar e, depois, separadamente da prática do ensino, exercitar os exames escolares. O que caracteriza o exame escolar? Ele é classificatório e seletivo, portanto o estudante que está na sala de aula pode permanecer e dar continuidade aos estudos, ou ser escolhido pela seletividade. Os exames existem há milênios como práticas sociais. Antes de Cristo, na China, já se praticava o exame para soldados. No Ocidente, a partir do século 16, surgiu a escola simultânea, ou seja, um professor que ensina muitos alunos ao mesmo tempo. Com o crescimento da quantidade de estudantes, tinha de haver um meio de aferir se eles tinham aprendido ou não, e aí importaram o modelo de examinação de outras áreas para a Márcio Limaeducação. Mas com a diferença de que na escola o aluno já tem a vaga, então só vai para aprender, e não para ser selecionado. Ainda assim, a prática é de seleção.
 
Isso não mudou desde então?A partir de 1930, o educador norte-americano Ralph Tyler começou a ponderar que não podíamos permitir a existência de uma escola que admite 100 crianças  e aprova apenas 30. Era preciso encontrar uma metodologia para que a escola aprovasse as 100. E o método é aparentemente óbvio: ensina, diagnostica. O aluno não aprendeu? Ensina-se novamente, até que ele aprenda. Todavia, a escola, em função da articulação dos exames escolares, não conseguia fazer isso, o que acontece até hoje: ensinamos e aplicamos uma prova. Se o estudante foi bem, está aprovado; se não foi bem, está reprovado, e fim de conversa. No Brasil, começamos a conversar sobre avaliação em torno dos anos 70. A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1961 ainda tem um capítulo sobre os exames escolares. A de 1971 não fala mais de exames escolares, mas de aferição do aproveitamento escolar. A lei que introduziu o termo avaliação é a de 1996, ainda que estados e municípios passassem a usar o termo avaliação para denominar a prática do exame. Mudamos a terminologia e não a prática. O esforço é fazer os educadores transitarem do conceito e prática de exame para a avaliação. De maneira geral, os professores não estão preocupados se a nota revela a aprendizagem ou não. Se tem nota 7 (supondo que essa seja a média) é aprovado e, se não, é reprovado. Classificam em uma escala de 0 a 10 e em consequência disso praticam a seleção. Durante o ano letivo ele vai sendo levado, mas no final se pratica a exclusão.
Qual o modelo de avaliação ideal?Não se pode fazer uma avaliação com características aleatórias. É preciso ter o rigor metodológico de uma pesquisa científica. Hoje, os exames são elaborados e aplicados sem que tenham características como sistematicidade. Para o rigor científico existir, é necessário ter como base o que foi ensinado e o que o professor quer saber se o aluno aprendeu. Então, ele obterá dados sistematicamente coletados sobre aquilo que quer compreender e avaliar. Além disso, os instrumentos devem ser elaborados com uma linguagem compreensível. O estudante precisa compreender o que está sendo perguntado. Hoje muitos não entendem o que o professor quer dizer e o educador diz "se vira". Uma terceira característica da boa avaliação é ser compatível com o ensino. Se ensinei fácil, pergunto fácil; se ensinei complexo, pergunto complexo. Os professores não levam em consideração o que foi ensinado em relação ao que precisa ser avaliado, então há uma disparidade entre a metodologia e a prática do conhecimento. A quarta característica é que as perguntas às vezes são imprecisas ou genéricas. É necessário que haja a mesma compreensão da pergunta pelo educador e pelo estudante. O que fez Dom Pedro I, por exemplo? Muita coisa! Tem de ser quando e onde. Tem de precisar a pergunta. Essas quatro características (sistematicidade, linguagem compreensiva, comprometimento metodológico do ensino e do instrumento de avaliação e precisão das perguntas) não são levadas em consideração. Quando isso acontece, o professor se engana e engana o estudante, sua família
e a sociedade.
Nessa nova perspectiva, não existiria a ideia de repetência?Não. Essa é uma palavra que precisa desaparecer do vocabulário da educação. Existem países, como a Dinamarca, em que o termo não existe nem no dicionário. Uma escola de ensino fundamental nesses países tem oito anos de escolaridade e são oito anos de aprendizagem satisfatória. No Brasil, com as múltiplas características de condições insatisfatórias de ensino, como material didático ruim, baixos salários, pouca paciência do educador em acolher o educando, entre outras, o que ocorre é que temos crianças que têm dificuldade de aprender. Mas como não há investimento para sanar essa dificuldade, elas são excluídas. Eu sou exemplo disso. Sou multirrepetente: fui reprovado três anos. Até que um dia um professor disse que se eu fosse bem ensinado, aprenderia. De lá para cá, aprendi. Hoje sou um pesquisador bem-sucedido. Alguém tem que dizer isso para os alunos. O diretor da escola precisa tomar nas mãos o destino da escola. Se tenho 10 estudantes que foram retidos em um ano, vou deixá-los retidos ou fazer ensino de qualidade para ultrapassar a defasagem? Não é só o professor que está envolvido nisso, mas a instituição escolar como um todo.
Como colocar isso em prática?A resposta é: gestão. Precisamos deixar de caracterizar o professor como um sacerdote. Ele é um gestor. E um gestor é aquele que produz efeito. Além disso, a gestão passa pelo diretor da escola, o vice-diretor, o secretário de Educação, o supervisor, o coordenador e o professor. O discurso "tem muito aluno, muita dificuldade" é muito comum em educação. A produção de resultados efetivos é empurrada com a barriga. Vitor Paro, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp), fez um estudo há 10 ou 12 anos sobre avaliação de aprendizagem em uma escola de São Paulo, que resultou no livro Fracasso escolar, renúncia à educação. Ele conta que, no primeiro dia do ano letivo do 1º ano do ensino fundamental, um educador lhe disse que dos 33 estudantes, no final 16 provavelmente seriam reprovados. Se no 1º dia de aula eu determino assim, nos outros 199 dias de aula o que vou fazer? Poderia fazer a gestão para que os 16 que eu identifico com dificuldade superem essa dificuldade. Mas se eu acredito desde o 1º ano que eles terão resultado negativo, eles terão.
Quais desafios o professor enfrenta hoje para mudar a forma de avaliar?O primeiro é pessoal, no sentido de que fomos formados sob a égide da cultura dos exames. Na sala de aula, reproduzimos o que aconteceu conosco. O segundo é mudar o modelo  dos exames, que vem do esquema de sociedade na qual eles nasceram: alguns ficam e muitos caem fora. Tem a história da educação também. São 500 anos de prática de exames escolares e isso não mudará de hoje para amanhã. Ralph Tyler começou a falar sobre avaliação em 1930 e ainda estamos tentando entendê-la e instituir uma nova prática. Trabalho com avaliação há 44 anos. Vejo mudanças. Estamos fazendo um movimento, mas ele ainda é insuficiente do ponto de vista de mudança da qualidade e da prática.

Fonte: Revista Educação 
http://www.universoneo.com.br/site/escolas-mantem-praticas-do-seculo-16-e-avaliam-aluno-de-forma-discriminatoria-diz-especialista
Pirateado de 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Como a MAUATHUR destruiu Visconde de Mauá (para meus netos)


          Para quem não conhece, é preciso lembrar que até meados de 2016 a região de Visconde de Mauá foi um paraíso ecológico. Sim, quem for agora pra lá vai se espantar e dizer que estou mentindo, como que o bairro de motéis de luxo da Grande Resende foi um paraíso? Só as pessoas mais velhas podem se lembrar disso.
         Existem as fotos e vídeos, mas com o aperfeiçoamento do Vídeoshop e Photoshop, muitos não sabem distinguir o que foi real e o que é montagem. Mostrei vídeos da cachoeira do Escorrega pros meus netos e eles duvidaram da veracidade deles, achando que eram montagens. Perguntaram: como que o Tobogã de Água Quente da Maromba foi uma Cachoeira Natural??

         Visto esse desconhecimento dessa geração, resolvi escrever um pequeno histórico, é de memória, pois sabemos que a grande catástrofe de 2019 acabou com os aquivos da época.

    • Até a virada do Milênio, Visconde de Mauá era considerada um paraíso natural. Atraía pessoas de todo o Brasil pra aproveitarem de suas cachoeiras e matas (sim havia matas fora do Parque Nacional). Mas além de atrair turistas que gostavam da natureza, começou a atrair grandes empresários que perceberam que poderiam lucrar muito numa região em que a população trabalhava pra manter um turismo pequeno porém ecológico.
    • Na primeira década do século, esses empresários foram fortalecendo uma associação comercial, chamada MAUATHUR, que nasceu pra atender a demanda de comerciantes frente a uma administração pública ausente. (Sim, meus netos, na origem essa MAUATHUR, que foi proibida em 2017 e teve todos os seus diretores presos, teve um papel positivo na região).
    • Hoje é sabido que a MAUATHUR comprou governantes estaduais pra criarem em 2007 o Projeto de Asfaltamento a Qualquer Custo, mas pra manipular a população chamaram de Estrada-Parque (sim, meus netos, sei que o nome é tão ridículo como o outro, pois se é estrada não é parque, mas isso enganou a população na época).
    • Como na Folha de Propina (chamavam de folha de pagamento na época em que o caixa 2 era proibido) constavam juízes, presidentes de órgãos ambientais e prefeitos (sem falar da imprensa), o processo foi muito rápido.
    • Entre 2008 e 2009 conseguiram no lado oficial diminuir ao máximo as leis ambientais pra fazer do jeito que queriam, e do lado popular compraram as Associações que tinham comerciantes ingênuos que seguiam suas ordens através da manipulação de informação.
    • Entre 2010 e 2011 fizeram a obra de asfaltamento da RJ-163, conseguiram acabar com a potabilidade da água de todo o entorno da estrada, deixando cicatrizes irremediáveis na Serra da Pedra Selada.
    • O mais absurdo de tudo, meus netos, é que diziam que tinham feito as obras de Esgoto e Saúde necessárias na região. Até o correio era inexistente, os moradores de Itatiaia tinham que se deslocar até uma agência em Resende pra pegar suas cartas e contas. Entende-se o contexto visto que o prefeito da época era dono de hotel em região concorrente - o hotel dele era na entrada do Parque Nacional e fez de tudo pra diminuir o turismo dos fundos do Parque Nacional, chegando ao ponto de não mais fazer a manutenção das estradas de terra (o que iludiu alguns moradores a apoiarem as teorias mafiosas das associações e seu asfalto a qualquer custo).
    • Não havia médicos nem hospitais e queriam aumentar a carga de turistas circulando. Quando a população perguntava sobre essas benfeitorias, os governantes diziam que a estrada estava boa, então que buscassem esses serviços no centro, pois o deslocamento seria rápido (muitos morreram dentro das ambulâncias presas nos congestionamentos na serra).
    • Sobre o esgoto, a coisa era a mais absurda de todas: a MAUATHUR defendia a teoria de que a merda mineira não era poluente, somente a merda fluminense. Assim, fizeram estações de tratamento (usando tecnologia obsoleta – acabando a luz, a merda vai pro rio) somente de um lado do rio, pra justificar o asfaltamento entre as pequenas vilas da região.
    • Teve uma data histórica, 26 de junho de 2012, quando um PERITO visitou a região, e autorizou a execução da obra na RJ-151. Houve manifestações da MAUATHUR e sua filial ASSOMIR (esta associação era descarada, se dizia de moradores mas só defendia o interesse dos comerciantes, se dizia a favor dos Bloquetes mas lutava pelo asfalto da MAUATHUR) em prol do Asfalto a qualquer custo, e a população local pela última vez caiu naqueles argumentos. Não se pôde fazer nada naquele ano, pois era ano eleitoral, mas o DER justificou somente fazer obras de manutenção pra DUPLICAR a largura da estrada.
    • Em 2013 e 2014 asfaltaram a RJ-151 e aproveitaram pra asfaltar os principais vales da região. Somente Minas Gerais ficou sem obras e isso ajudou na preservação por alguns anos. Curioso que o município mais pobre dos 3 da região sempre foi o mais sofisticado e ecológico.
    • Já no final de 2013 a população percebeu os erros cometidos, mas era tarde. No verão de 2013/2014 o cheiro do rio Preto na Vila de Mauá estava insuportável (isso que ainda fizeram medidas compensatórias, mas nada funcionou), ou seja, perceberam que a merda de Minas Gerais era tão prejudicial quanto a do Rio de Janeiro, e fizeram estações no lado mineiro.
    • O trânsito ficou tão ruim que construíram pontes e duplicaram e asfaltaram as estradas mineiras. A cada intervenção destas, os associados da MAUATHUR recebiam fortunas em desapropriação e os comerciantes locais e tradicionais (das famílias mais antigas) tiveram de mudar pra longe, somente a família Bruller que soube preservar seu entorno e ecologia conseguiu criar uma ilha de vegetação e mata fora do Parque Nacional.
    • Em 2014 as festas populares perderam totalmente o público vindo de fora, pois a cidade estava mais fedida que o Rio Tietê (antes desse ser canalizado e soterrado).
    • No inverno de 2014, mesmo com as novas estações de tratamento de esgoto o cheiro alcançou as vilas de Maringá, acabando com o turismo nessa região. Somente a Maromba recebia turistas, e os que tinham condições vinham de helicóptero pra evitar o mau cheiro das vilas da chegada.
    • A essa altura, os tubarões da MAUATHUR e ASSOMIR se afastaram da região (segundo se fala, foram destruir e enriquecer em outras regiões mais afastadas). Alguns antigos tentaram ainda fazer algo e a última proposta foi a canalização do Rio Preto, entre a Maromba e a Ponte dos Cachorros. Por cima do Rio Preto construíram as vias rápidas, mas que comparadas à época da estrada de terra só se consegue chegar a metade da velocidade de antigamente, pois o congestionamento não se consegue evitar. Agora falam de fazer um rodízio de placas nas estradas de Visconde de Mauá...

          Enfim, meus netos, sou a favor que no lugar do rodízio se faça uma ciclovia e uma faixa de trasporte coletivo. Mas meu sonho mesmo é que se destrua o Canal Osvalldo Cão pra tentar recuperar o antigo Rio Preto, mas sei que isso é sonho de velho e o progresso tem de continuar (ouço isso desde a Rio 92). Quem sabe na Rio+30 deste ano conseguiremos verba pra mudar a região...

Rui Thakeguma, 19 de junho de 2022
(este texto foi publicado nos principais Jornais e Revistas do Brasil em 2022 obviamente é um texto fictício e qualquer coincidência com a realidade, é mera coincidência)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Curiosidade é uma coceira de idéias (de Rubem Alves)

Eu estava com a cabeça quente. Queria descansar, parar de pensar. Para parar de pensar nada melhor que trabalhar com as mãos. Peguei minha caixa de ferramentas, a serra circular e a furadeira e fui para o terceiro andar, onde guardo os meus livros.

Iria fazer umas estantes. As tábuas já estavam lá. Nem bem comecei a trabalhar de carpinteiro e fui interrompido com a chegada da faxineira. Com ela, sua filhinha de 7 anos, Dionéia. Carinha redonda, sorriso mostrando os dentes brancos, trancinhas estilo afro.

O que se era de esperar numa menina da idade dela era que ela ficasse com a mãe. Não ficou. Preferiu ficar comigo, vendo o que eu fazia. Por que ela fez isso? Curiosidade. Curiosidade é uma coceira que dá nas idéias... Aquelas ferramentas e o que eu estava fazendo a fascinavam. Ela queria aprender.

‘O que é isso que você tem na mão?‘, ela perguntou. ‘É uma trena‘, respondi. ‘Para que serve a trena?, ela continuou. ‘A trena serve para medir. Preciso de uma tábua de um metro e vinte. Assim, vou medir um metro e vinte. Veja!‘

Puxei a lâmina da trena e lhe mostrei os números. Ela olhou atentamente. ‘Você já sabe os números?‘, perguntei. ‘Sei‘, ela respondeu. Continuei: ‘Veja esses números sobre os risquinhos. O espaço entre esses risquinhos mais compridos é um centímetro. Um metro tem cem centímetros, cem desses pedacinhos. Veja que de dez em dez centimetros o número aparece escrito em vermelho. É que, para facilitar, os centímetros são amarrados em pacotinhos de dez. Um metro é feito com dez pacotinhos de dez centímetros.. Um metro e vinte são dez desses pacotinhos, para fazer um metro, mais dois, para completar os vinte centímetros que faltam‘. Marquei um metro e vinte na tábua com um lapis me preparei para riscar a tábua.

Assim se iniciou uma das mais alegres experiências de ensino e aprendizagem que tive na minha vida. A Dionéia queria saber de tudo. Não precisei fazer uso de nenhum artifício de “motivação” para que ela estivesse motivada. O que a motivava era o fascínio daquilo que eu estava fazendo e das ferramentas que eu estava usando. Seus olhos e pensamentos estavam coçando de curiosidade. Ela queria aprender para se curar da coceira... Os Gregos diziam que a cabeça começa a pensar quando os olhos ficam estupidificados diante de um objeto. Pensamos para decifrar o enigma da visão. Pensamos para compreender o que vemos. E as perguntas se sucediam. Para que serve o esquadro? Como é que as serras serram? Porque é que a serra gira quando se aperta o botão? O que é a eletricidade?

Lembrei-me de Joseph Knecht, o mestre supremo da ordem monástica ‘Castália‘, do livro de Hermann Hesse ‘O jogo das contas de vidro‘. Velho, ao final de sua carreira, no topo da hieraquia dos saberes, ele se viu acometido por um enfado sem remédio com tudo aquilo e passou a sentir uma grande nostalgia: queria descer da sua posição para fazer uma coisa muito simples: educar uma criança, uma única criança, que ainda não tivesse sido deformada pela escola. Pois ali estava eu, vivendo o sonho de Joseph Knecht: a Dionéia, que ainda não fora deformada pela escola. Seu rosto estava iluminado pela curiosidade e pelo prazer de entrar num mundo que não conhecia.

Lembrei-me da afirmação com que Aristóteles inicia a sua Metafísica: ‘Todos os homens tem, por natureza, um desejo de conhecer: uma prova disso é o prazer das sensações, pois, fora até de sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas e, mais que todas as outras, as visuais...‘

Acho que Aristóteles errou. Isso não é verdade dos adultos. Os adultos já foram deformados. Acho que ele estaria mais próximo da verdade se tivesse dito: ‘Todos os homens, enquanto crianças, têm, por natureza, desejo de conhecer...‘

Para as crianças o mundo é um vasto parque de diversões. As coisas são fascinantes, provocações ao olhar. Cada coisa é um convite.

Aí a Dioneia sumiu. Pensei que ela tivesse voltado para a mãe. Engano. Alguns minutos depois ela voltou. Estivera examinando uma coleção de livros. ‘Sabe aqueles livros, todos de capa parecida? Os três primeiros livros estão de cabeça para baixo.‘ Retruquei: ‘Pois ponha os livros de cabeça para cima!‘

Ela saiu e logo depois voltou. ‘Já pus os livros de cabeça para cima.‘ E acrescentou: ‘Sabe de uma coisa? O livro com o número 38 está fora do lugar.‘ Aí aconteceu comigo: fui eu quem ficou estupidificado...Ela, que não sabia escrever, já sabia os números. E sabia mais, que os números indicam uma ordem.

Fiquei a imaginar o que vai acontecer com a Dionéia quando, na escola, os seus olhinhos curiosos vão ser subtraídos do fascinio das coisas do mundo que a cerca, e vão ser obrigados a seguir aquilo a que os programas obrigam. Será possível aprender sem que os olhos estejam fascinados pelo objeto misterioso que os desafia?

Pois sabe de uma coisa? Acho que vou fazer com a Dionéia aquilo que Joseph Knecht tinha vontade de fazer...

Rubem Alves, 68, é educador, psicanalista, escreve estórias para crianças e crônicas para adultos. No momento está escrevendo um livro em que conta, para suas netas, como era o mundo em que viveu, criança, na roça...Seus últimos livros: O Médico, Por uma educação romântica ( Papirus) e Livro sem fim ( Loyola).


Pirateado de http://www.rubemalves.com.br/curiosidadeeumacachoeiradeideias.htm

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

o vídeo mais visto

Rui Takeguma possui mais de 770 vídeos no YouTube
e o disparado recordista de visitação, com
228.425 pessoas que assistiram

http://youtu.be/4RX8GSrNw6k




10 de fevereiro de 2011 - Poço das Fadas - Maromba - Visconde de Mauá - www.criasdofuturo.blogspot.com

ê meu pai...

http://youtu.be/9_F7EPnbiZU



23 de fevereiro de 2012 - Rudá, meu amor no final de sessão de ayahuasca. www.ruda-ie.blogspot.com e www.pesayahuasca.blogspot.com

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Brasil: cada vez pior - Cesáreas superam partos normais pela primeira vez no país

Cesáreas superam partos normais pela primeira vez no país

ANTÔNIO GOIS
DENISE MENCHEN
DO RIO

No ano passado, pela primeira vez, o percentual de cesarianas superou o de partos normais no Brasil. As cesáreas chegaram a 52% do total. Em 2009, os dois modos se igualavam. Para a OMS (Organização Mundial da Saúde), o recomendado é uma taxa em torno de 15%.

Entenda como é feita a cesárea
O grande número de cesarianas é puxado pelo setor privado, em que 80% dos partos são cirúrgicos desde 2004, informa reportagem de Antônio Gois e Denise Menchen, publicada na edição deste domingo da Folha (a íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).

Como é marcada com antecedência, a cesariana pode ocorrer antes do tempo adequado e levar o bebê a apresentar problemas associados à prematuridade.



tirado de http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1009189-cesareas-superam-partos-normais-pela-primeira-vez-no-pais.shtml

Crias e Ensaio musical

http://youtu.be/guSRMAW53Ns



e aproveito pra divulgar um PDF: http://www.amusicanaescola.com.br/pdf/AMUSICANAESCOLA.pdf

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O Coração inteligente, Arte, Amor e Educação – além de televisão, computadores e adolescência...

O Coração inteligente, Arte, Amor e Educação – além de televisão, computadores e adolescência...

Recentemente no FACEBOOK, vi muita gente compartilhando um site que trazia algumas informações sobre o tema do coração com neurônios. Dizendo ser informações “novas” e justificando teorias místicas a partir de simplicismos...
Resolvi achar em nossos arquivos de Te&So (Teoria e Somaiê) um texto do autor de “A Criança Mágica”, de mais de 12 anos atrás, em que se divulgam essas teses com mais detalhes. Aproveitei pra reaçar algumas partes.
Teorias do J. C. Pearce se juntam com as teses de José Ângelo Gaiarsa, Wilhelm Reich, Roberto Freire e Humberto Maturana nas nossas pesquisas acerca do crescimento humano.
A Somaiê se mantém como uma terapia libertária com grupos em São Paulo e Belo Horizonte e suas teorias são expandidas nas pesquisas de Te&So. Em Sampa deixamos a semente dos TESINHOS, em Visconde de Mauá fazemos reuniões das Crias do Futuro. Apareça e Cresça. (vejam a matéria principal da primeira revista AmaR & BrincaR – www.amarebrincar.blogspot.com)

Rui Takeguma, 19 de fevereiro de 2012

Entrevista com Joseph Chilton Pearce - por Chris Mercogliano e Kim Debus da revista Journal of Family Life,vol.5#1, 1999

Por quase meio século Joseph Chilton Pearce, que prefere ser chamado simplesmente Joe, tem sondado os mistérios da mente humana. Autor de “The Crack in the Cosmic Egg” (A Rachadura no Ovo Cósmico), “Exploring the Crack in the Cosmic Egg: (Explorando a rachadura no Ovo Cósmico), “Magical Child” (A Criança Mágica), “The Magical Child Matures” (A Criança Mágica Amadurece), “Bond of Power” (O Laço de Poder) e “Evolution`s End” (O Fim da Evolução), uma de suas paixões insaciáveis continua sendo o estudo do que ele chama a inteligência reveladora nas crianças. Ele se auto proclama um iconoclasta sem medo de falar alto contra a miríade de maneiras pela qual a cultura americana falha na fomentação das necessidades e anseios intelectuais, emocionais e espirituais de nossos jovens. Em parte catedrático, cientista, místico, professor itinerante, Joe se mantém em constante contato com os mais brilhantes homens e mulheres em suas áreas de conhecimento. Ele cria uma síntese única de seus trabalhos e traduz os resultados numa linguagem accessível, uma contribuição valiosa nestes dias de crescente especialização científica. Depois Joe viaja mundo afora partilhando sua laboriosa sabedoria reunida se necessário, sem custo com quem quer que ele considere que possa fazer diferença. Tivemos a sorte de encontrá-lo por telefone, em sua casa no centro de Virgínia.

Chris: A moderna neurociência tem realizado incríveis descobertas sobre o coração humano. Você pode nos falar um pouco sobre elas numa linguagem para leigos?
Joe: A idéia de que podemos pensar com nossos corações não é mais uma metáfora, mas de fato um fenômeno bem real. Agora sabemos que o coração é o maior centro de inteligência nos seres humanos. Os biólogos moleculares descobriram que o coração é a glândula endócrina mais importante do corpo. Respondendo a nossa experiência de mundo, ele produz e libera um importante hormônio, o ANF Fator Neuriático Atriol que afeta profundamente toda operação na estrutura límbica, ou ao que nos referimos como cérebro emocional. Isto inclui a área do hipocampo onde acontece a memória e o aprendizado, e também os centros de controle do sistema hormonal inteiro. E neurocardiologistas descobriram que 60 a 65% das células do coração são na verdade células neurais, não células de músculo como se acreditava até então. Elas são idênticas as células neurais do cérebro, operando através das mesmas cadeias chamadas gânglios, com as mesmas conexões de dendritos (prolongamento dos neurônios, especializados na recepção de estímulos) e de axônios (prolongamento dos neurônios especializados na transmissão do estímulo) que ocorrem no cérebro. Em outras palavras, há literalmente um cérebro no coração, cujos gânglios estão ligados a cada órgão importante do corpo, ao sistema muscular inteiro e que de uma maneira única capacita os humanos a expressar suas emoções. Cerca da metade das células neurais do coração estão envolvidas em traduzir a informação enviada por todo corpo de maneira a mantê-lo funcionando como um todo harmonioso. E a outra metade faz uma conexão neural muito ampla com o cérebro emocional em nossa cabeça,
mantendo um diálogo de vinte e quatro horas por dia entre o coração e o cérebro, do qual sequer temos consciência.

Kim: Como isso funciona?
Joe: O coração responde a mensagens enviadas a ele pelo cérebro emocional, o qual está ocupado monitorando o ambiente interior dos estados dinâmicos tais como as emoções e o sistema imunológico, orientando o comportamento e contribuindo com o nosso sentido de identidade pessoal. O cérebro emocional faz uma avaliação qualitativa de nossa experiência de mundo e envia essa informação instante a instante direto para o coração. Por seu lado, o coração exorta o cérebro a prover uma resposta adequada. É claro que tudo isso se realiza em um nível não verbal. Em outras palavras, as respostas do coração afetam o sistema humano inteiro. Entrementes os biofísicos descobriram que o coração também é um poderoso gerador eletromagnético. Ele cria um campo eletromagnético que abarca o corpo e se estende de 8 a 12 pés (de 2,76 a 3,65m) para além do corpo. É tão poderoso que você pode fazer uma leitura eletrocardiográfica até 3 pés (91,44cm) distante do corpo. O campo produzido pelo coração é holográfico, o que significa que você pode fazer uma leitura a partir de qualquer ponto do corpo e de qualquer ponto do campo. Não importa o quão microscópica seja a amostra, você pode receber a informação do campo inteiro. A coisa intrigante é o quão profundamente este campo eletromagnético afeta o cérebro. Tudo indica que ele fornece todo um espectro de onda a partir do qual o cérebro retira seu material para criar uma experiência interna do mundo. Talvez ainda de maior importância, nós sabemos que o espectro de ondas do coração é profundamente afetado por nossa resposta emocional ao nosso mundo. Nossa resposta emocional muda o espectro eletromagnético do coração, que é de onde o cérebro se alimenta. Finalmente, tudo em nossas vidas depende de nossa resposta emocional aos eventos específicos.

Chris: Como este novo conhecimento se aplica as crianças e a seu saudável desenvolvimento?
Joe: A experiência emocional das crianças, como se sentem a respeito de si mesmas e do mundo que as rodeia, tem um tremendo impacto em seu crescimento e desenvolvimento. É a fundação na qual se baseia todo o aprendizado, a memória, a saúde e o bem-estar. Quando a estrutura emocional não é estável e positiva numa criança, nenhum outro processo de desenvolvimento funcionará a todo vapor. Desenvolvimento ulterior será apenas uma compensação às deficiências. Então a primeira e mais importante coisa que precisa acontecer se você quer crianças saudáveis, inteligentes e felizes é que elas tenham uma experiência emocional positiva. São uns 40 a 50 anos de esforços em pesquisa de locais como a Universidade de Havard, a Escola de Medicina da Universidade do Arizona com gente como Schwartz e Russick, e HeratMath lá na Califórnia que apóiam esta afirmativa.
Tudo começa com crianças que se sentem desejadas, aceitas e amadas incondicionalmente. Esta é a chave da coisa toda. Você pode ter tudo mais: um alto nível de vida, o mais caro sistema escolar, os melhores professores do mundo; mas se falta as crianças a experiência primeira de serem amadas incondicionalmente por uma pessoa pelo menos, e se não se sentem tranqüilas e seguras em seu ambiente de aprendizado, então nada vai funcionar muito positivamente. Isso precisa ser enfatizado.

Chris: Parece que há um bocado de implicações aqui em relação à maneira como educamos nossas crianças.
Joe: O “x” da questão da educação é que há apenas dois tipos de aprendizado: um é o verdadeiro aprendizado e o outro é condicionamento. Condicionamento é uma resposta repleta de medo do primitivo ou o que chamamos de cérebro posterior ou cérebro reptiliano. Este é o cérebro dos reflexos, da sobrevivência, que responde como se estivesse sendo ameaçado. Aqui acontece uma forma de aprendizado, mas é um aprendizado condicionado e intimamente relacionado com estados emocionais de hostilidade, raiva e ansiedade. Se você deseja um verdadeiro aprendizado que envolva os lobos frontais superiores o cérebro intelectual e criativo, então, mais uma vez, o ambiente emocional precisa ser positivo e de apoio. Isto porque ao primeiro sinal de ansiedade, o cérebro muda suas funções dos lobos superiores, pré-frontais para os da velha defesa do cérebro reptiliano.

Kim: Ao que parece pode-se dizer que nosso desenvolvimento está mais baseado no cuidado do que na natureza.
Joe: A nova pesquisa sobre este assunto é bem intrigante. Na Inglaterra, os pesquisadores chegaram a hipótese de que o ambiente modifica profundamente a nossa estrutura genética, que ele é a maior influência de todas sobre o nosso ADN. Há estudos agora que mostram que nossos genes não estão de maneira nenhuma trancados em programas inalteráveis, mas que de fato são profundamente afetados por nosso ambiente, especialmente nosso ambiente emocional. No número de maio da revista Science, havia um artigo que discutia como o estado emocional de uma mãe durante a gravidez, determina a direção da evolução a ocorrer no feto que está se desenvolvendo. Seu bem-estar determina se o desenvolvimento de cérebro fetal se concentra nos lobos frontais ou no cérebro reptiliano envolvido com a sobrevivência. Esta é provavelmente a informação mais explosiva sobre o assunto até o momento. E faz sentido porque o coração é o primeiro órgão a se formar no feto dez dias após a concepção, e tem que ser assim porque ele fornece o espectro eletromagnético do qual o próprio ADN depende para receber instruções.

Kim: Você está dizendo que mesmo após a concepção nossa estrutura genética continua a mudar?
Joe: Exatamente. E após o nascimento isso continua, pois você continua a ver uma transformação de ênfase entre o cérebro primitivo e os cérebros emocional e cognitivo. Você tem não apenas estas transformações ocorrendo durante os primeiros onze anos de vida, como também uma grande redundância de coisas no cérebro. Por volta dos onze, doze anos o cérebro passa por um eficiente ajustamento e começa a decidir do quê se desfazer. O cérebro começa a desprender as conexões neurais em excesso no cérebro primitivo ou no novo cérebro intelectual. O que é removido vai depender das situações de vida da criança no momento. A questão, se ela se sente segura e amada ou se considera que precisa se proteger de um mundo hostil tem um profundo efeito em sua inteligência.

Kim: Ok, então o que você diz da meninada que cresceu em famílias hostis e que não tem esse amor incondicional? O que podemos fazer para reverter este processo e capacitá-los a um crescimento que lhes permitam ser pessoas inteiras?
Joe: Bem, para mim a coisa toda cozinha no coração. As crianças de quem você fala foram privadas de uma alimentação adequada do coração-cérebro. Estiveram operando num ambiente de profunda privação e a única coisa que você pode fazer é de uma maneira ou de outra fornecer a elas um ambiente acolhedor onde se sintam seguras, amadas e desejadas. Sei que isso parece muito simplista, mas realmente é a coisa a ser feita. Estes jovens precisam de comunicação áudio-vocal, cuidados, brincadeiras, movimentos corporais, contato pelo olhar, sons suaves e um constante contato amoroso a nível físico. Veja o novo livro “Untouched”, de Marianna Caplin. É um trabalho brilhante e bem documentado que está no mesmo tope do clássico livro sobre o toque de Ashley Montagu, escrito há 30 anos atrás. Ele trata da criança americana faminta de toque, que nunca recebeu cuidado emocional ou físico suficiente. Precisamos entender aqui que o emocional e o físico em essência são a mesma coisa. São tantos os adolescentes americanos privados de toque e amor desde o início de suas vidas.

Chris: No que resulta esta privação?
Joe: Eles tentam compensar esta ausência com todos os tipos de substitutivos fornecidos culturalmente, que não satisfazem suas necessidades. Pelos últimos quinze anos, Ann Morrison tem trabalhado com jovens criminosos de extrema periculosidade em prisões de segurança máxima no estado de Nova York, gente jovem na faixa etária de 15 a 20 anos, considerados irremediáveis pela sociedade. Através de histórias contadas, peças e uma série de atividades correlatas Ann conquista estes adolescentes iletrados e com pouco educação. De repente eles estão lendo, escrevendo sua própria poesia e expressando-se em uma variedade de formas. Ela começou, seguindo seus próprios instintos, com muito amor entrou e calmamente começou a contar histórias, mesmo que tivessem a TV ligada e fazendo todo aquele barulho e bagunça que adolescente costuma fazer. Ela foi capaz de alcançá-los porque oferecia algo que eles nunca tiveram uma figura de mãe, uma amiga compassiva. Como disse Margaret Mead, “Arte é a linguagem da linguagem do coração, que é a linguagem da estrutura emocional”.

Chris: Você não disse certa vez que as crianças imaginativas nunca são violentas?
Joe: Bem, na Suécia há um grupo de médicos que afirma que isto é verdade. Seus estudos mostram que as crianças que possuem uma capacidade abundante de criar imagens do mundo interior, nunca são violentas. E mais, sempre que estejam diante da violência são capazes de imaginar e implementar soluções alternativas. É o que Ann Morrison está dando aqueles jovens, a oportunidade de re-criar seus mundos internos, estabelecer a conexão coração/cérebro que nunca lhes foi permitido desenvolver durante sua infância.

Chris: Acho que também ouvi que a televisão é o arquiinimigo da imaginação. O que a televisão está exatamente fazendo a nossas crianças?
Joe: A televisão literalmente impede o crescimento neural nos cérebros em desenvolvimento das crianças. Quando as crianças menores assistem demais, é suprimida a capacidade de seus cérebros de criar uma imagem interna de algo ou de alguém, a qual é a essência do que chamamos imaginação. Os pesquisadores costumavam pensar que apenas o conteúdo da programação afetasse negativamente as crianças. Agora temos ampla evidência de que a tecnologia do aparelho é muito nociva por si mesma. Em outras palavras, o simples ato de assistir televisão tem profundos efeitos negativos na fisiologia dos seres humanos.

Chris: Como é isso?
Joe: É uma longa história que começa no início dos anos 60 quando foi descoberto que a mente das crianças fica catatônica diante do tubo de imagem. Isso tem a haver com a maneira como o cérebro reage à luz radiante, que é a fonte de luz da televisão e do monitor dos computadores, e a luz refletida, que nos dá a outra parte de nossa experiência visual. Isso é muito complicado para nos estendermos aqui, então me deixe apenas dizer que o cérebro tende a se fechar em resposta a fontes de luz radiante. Todos nós já vimos como as crianças ficam hipnotizadas quando assistem à televisão qualquer que seja o tempo. Minha maior preocupação tem a haver com a maneira como a indústria televisiva faz frente a este efeito, introduzindo na programação infantil o que é conhecido como efeitos especiais. Um efeito especial é qualquer coisa que aciona o cérebro a pensar que pode haver uma emergência lá fora e o alerta a prestar atenção especial a fonte do distúrbio. A televisão realiza isso com súbitas e dramáticas mudanças na intensidade da luz ou do som e uma rápida mudança de ângulos da câmara. Consequentemente, portanto, o cérebro começa a se habituar a situação, percebendo que são apenas alarmes falsos, e começa a se modular novamente. E o resultado é que a televisão a cada dez anos, mais ou menos, vem tornando os efeitos cada vez maiores, até que finalmente o que temos é explosões periódicas de imagens violentas nos desenhos infantis e por aí afora, ao ponto que agora há uma média de 16 fragmentos de violência a cada meia hora. A natureza do conteúdo do programa tem importância aqui. Enquanto o cérebro superior, ou neocórtex sabe que as imagens na Tv não são reais, o cérebro inferior ou primitivo não sabe. Isto significa que quando a criança vê violência na televisão, o cérebro primitivo envia uma série de mensagens de alarme para o cérebro emocional o qual entra imediatamente em contato com o coração. No momento em que o coração recebe qualquer indicação de negatividades ou de perigo ele passa de seu modo harmônico normal para um modo incoerente, acionando a liberação do hormônio mais potente no corpo humano, conhecido como cortisol. O cortisol instantaneamente desperta o cérebro e o faz produzir trilhões de ligações neurais a fim de deixar o indivíduo alerta diante da emergência. Depois, assim que o coração recebe a mensagem de que está tudo limpo a frente, outro hormônio é liberado para dissolver todos os novo caminhos neurais que não foram utilizados para uma reação rápida e adaptável à ameaça percebida. A calamidade com o programa de televisão infantil de nossos dias é que ele nunca diminui este ritmo, e o cérebro da criança americana, que assistiu 5.000 a 6.000 horas de TV na idade entre cinco e seis anos, está sofrendo de uma grande confusão. A hiper estimulação massiva da televisão está causando ao cérebro uma incapacidade para a adaptação de uma maneira que jamais se pensou ser possível. Ele está literalmente entrando em colapso em todos os níveis de desenvolvimento neural.

Kim: Você pode nos dar exemplos específicos?
Joe: Vou lhe dar alguns. O Instituto de Psicologia da Alemanha conduziu um estudo de vinte anos de 4.000 crianças por ano, crianças que assistiram em média 5.000 a 6.000 horas de televisão aos seis anos. Os pesquisadores descobriram que vinte anos atrás os jovens podiam distinguir 360 diferentes tonalidades de uma única cor como o vermelho ou o azul. Hoje distingue cerca de 130. Isso significa uma perda acima de 2\3 de sua capacidade de detectar matizes de cor. Agora, isso é estritamente um colapso neuro cognitivo. A mudança mais séria relatada foi o colapso da habilidade do cérebro de cruzar índices de seu sistema cinético-sensorial inteiro. Quer dizer, os sistemas sensoriais de um número cada vez maior de crianças estão atuando como componentes isolados no cérebro e cada vez menos como um todo inteiro coordenado. Quando colocaram as crianças num ambiente natural sem alta densidade de estímulo, como o que vem na televisão, elas foram ficando muito ansiosas, chateadas, tendendo a violência. A conclusão perturbadora no estudo alemão é que houve no mesmo período de vinte anos uma redução de 20% na capacidade da criança de ter conhecimento de seu meio ambiente natural. Isso se encaixa nos estudos de Márcia Mikulac sobre a evolução nos anos 80, onde ela descobriu uma redução de 20 a 85% na habilidade das crianças americanas de apresentar sinal sensorial ao meio ambiente, em oposição as crianças de sociedades não tecnológicas pré- alfabetizadas. Então os estudos alemães apóiam o que já sabíamos sobre a insensibilização de crianças expostas a estímulos inapropriados de fontes como a TV, rock e computadores.

Chris: Jerry Mander salientou em seu livro sobre televisão que quando a televisão foi introduzida era anunciada como uma tecnologia maravilhosa, democrática que tornaria melhor a vida das pessoas e serviria como ferramenta pedagógica disponível gratuitamente. E a cultura americana comprou esta fantasia aos lotes. E os computadores nos anos 90?
Joe: Bem, os computadores caem na mesma categoria. Eis um exemplo que demonstra como eles podem ter o mesmo efeito debilitante sobre a mente que a TV. Pesquisadores pegaram uma página de um livro da 4a série que continha um texto explicativo e um par de diagramas ou gravuras e pediu a três grupos de pessoas para estudar a informação. Ao grupo A foi dado o próprio papel para estudar. Ao grupo B foi mostrado um filme da página e ao grupo C foi apresentado na tela de uma TV que é exatamente igual ao monitor do computador. 20 minutos depois eles foram testados quanto à compreensão e retenção do material. O grupo A, que tinha uma cópia em papel em suas mãos, teve uma média de 85% de retenção. Os que viram na tela de cinema 25 a 30%, e os que estudaram na TV tiveram uma retenção de 3 a 5%. Quando misturaram os grupos e os testaram novamente com diferentes páginas do livro, em cada caso a retenção e compreensão foi idêntica. Mais uma vez isso tem a haver com o modo como o cérebro é construído e a maneira como responde a luz radiante e a luz refletida como fonte de informação. Isso deveria nos provocar uma pausa para pensar, mas isso não vai acontecer.

Chris: Por quê?
Joe: Eu participei de uma conferência sobre computadores na Universidade da Califórnia, em Berkeley durante a qual vinte e um de nós de todo o mundo passamos quatro dias discutindo a questão dos computadores na educação. No mesmo período o estado da Califórnia tinha uma verba de 500 milhões de dólares pendendo para um projeto piloto de educação computadorizada que incluía do jardim de infância ao segundo grau. Eles me pediram que aparecesse para falar aos legisladores e apresentar um relato do que tínhamos descoberto durante aqueles quatro dias em Berkeley. A mulher organizando isso, que na época era a chefe do departamento de estratégia do partido republicano, foi demitida por ter me convidado a falar. Apenas uma amostra de quanto dinheiro e poder está envolvido.

Kim: Mas tantas ocupações hoje em dia envolvem computadores. Como podemos ajudar aos jovens que precisam saber sobre computadores sem confiar demasiado neles?
Joe: Naquele simpósio de quatro dias em Berkeley nós concluímos que tudo depende da idade. Um professor do Instituto de Tecnologia de Massachussets fez uma súplica apaixonada no sentido de que devemos encorajar as crianças a desenvolver primeiro a habilidade de pensar, para depois lhes dar um computador. Depois disso o céu é o limite. Mas se você introduz o computador antes que os processos de pensamento estejam desenvolvidos terá um desastre. Isto porque, como salientou Piaget, os primeiros doze anos de vida são despendidos no ajuste da estrutura de conhecimento que capacita os jovens a compreender informação simbólica, metafórica e abstrata. A capacidade para o pensamento abstrato foi desenvolvida em resultado de processos naturais concretos em andamento por milhões de anos. O perigo aqui é que o computador, que opera com a mesma tecnologia do tubo de raio catódico como o da TV, interrompe este desenvolvimento.

Chris: TV e computadores de lado. Eu percebo em um bocado de jovens conhecidos que eles sentem como se estivesse faltando algo em suas vidas. Você também já percebeu isso em suas viagens?
Joe: Sempre falei sobre três características principais em todos adolescentes. A primeira é uma sensação de enorme expectativa de que algo tremendo vá acontecer em suas vidas em torno dos 15 ou 16 anos. A segunda é o sentimento de algo nobre existe dentro deles. A terceira é uma aspiração tão intensa que nunca se abranda. Assim que a este ponto os adolescentes começam a procurar modelos, alguém para ajudá-los a definir e colocar esta profunda aspiração em perspectiva. E o que conseguem? MTV, estrelas do rock e todo o resto do lixo em filmes na televisão.

Kim: Este é o estágio da vida quando muitas outras culturas encorajam o crescimento espiritual através de coisas como a idade e rituais de passagem. Você acha que a ausência destas coisas em nossa cultura é uma de nossas ruínas?
Joe: Certamente, mas as coisas de que você fala são bloqueadas veementemente por nossa sociedade porque não são economicamente viáveis. Não se pode dar a elas um valor em dólar. Os jovens, procurando por aí afora por algo que tenha significado e substância passam por momentos terríveis para achar o que procuram porque estão presos em nosso sistema cultural. Olhe no livro de Ralph Nader e Linda Cocos sobre a exploração social das crianças. É uma bomba. Por exemplo, quando Ralph Nader se aproximou de Bob Pittman, que inventou a MTV, e perguntou a ele se tinha consciência da profunda influência que estavam tendo sobre os adolescentes, o cara reclinou-se e disse, “Ralph nós não influenciamos os adolescentes, nós os temos”. Hoje há promotores no mercado vendendo programas às corporações, detalhando como explorar a mente infantil! Em outras palavras, estamos totalmente estruturados neste momento como uma sociedade consumidora, e mudar este fato iria literalmente ameaçar nossa economia. Eu não acho que você possa mudar esta realidade em larga escala. Você pode apenas trabalhar em torno dos limites e ter esperança de alcançar um indivíduo por vez. Ninguém vai mudar o sistema inteiro. Tudo que podemos fazer é apelar a pais que tenham ouvidos para ouvir e que estejam desejosos de aceitar o risco de tirar seus filhos desta loucura e protegê-los contra ela.

Chris: Que conselho você daria aos pais de adolescentes sobre como poder ajudar seus filhos a perseguir seus desejos mais profundos?
Joe: Bem, em primeiro lugar uma enormidade de adolescentes não tem idéia do que sejam seus desejos porque não lhes foi dada a oportunidade de averiguar. Assim que podemos começar ajudando-os a identificar seus desejos. Depois podemos começar a ser mais pró- ativos do que reacionários. A maioria das crises ocorrendo em nossos jovens hoje é arbitrária, quer dizer, são criadas pela própria cultura. Ao invés de gastar milhões de dólares tentando consertar o que anda errado com os adolescentes, deveríamos investir na educação das pessoas para ser bons pais, para amar e cuidar de seus bebês e crianças de maneira que não tenham enormes problemas mais tarde. Na Suécia, as novas mães têm direito a três anos para viver a maternidade. Antes era um ano, e agora elevaram este tempo para três anos de maneira que as mães possam ficar em casa com suas crianças. E estão dando aos pais um ano de dispensa paga, assim que ambos, pai e mãe podem ficar com sua criança durante o primeiro ano de vida. Então quando você pergunta o que podemos fazer com nossos adolescentes, eu digo que podemos começar por prevenir o estrago logo no início.

Kim: Então você acha que há esperanças para nós?
Joe: Agora mesmo há coisas extraordinárias acontecendo, são pequenos bolsões em todo o mundo, exemplos de verdadeira coerência num sistema maciçamente incoerente. E quando este pesadelo econômico global a que nos prendemos finalmente se auto destruir como acho que tem que acontecer estes pequenos bolsões de inteligência coerente se manifestarão e proverão o ímpeto e a sabedoria às mudanças necessárias para criar um mundo no qual as crianças possam atingir seu potencial completo. Sou muito otimista a este respeito.

Tradução para o português Sonia Gentil – Bahia
Arquivos de Te&So (Teoria & Somaiê)
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